Terça-feira, Outubro 13, 2009

Mudança de endereço, feliz aniversário

Amigos, chegou o dia. Mudei-me para juliolemos.com. Nova fase, etc. Atualizem os links, não voltem mais aqui. Em breve, talvez não muito breve, esse endereço www.julio-lemos.blogspot.com passará para o limbo.

Todos os antigos posts estão arquivados no novo blog. Vejo vocês por lá.

E feliz aniversário, caso alguém tenha cumprido anos nesses dias (you know who you are).

Domingo, Setembro 27, 2009

For every ω-consistent recursive class κ of FORMULAS there are recursive CLASS SIGNS r, such that neither v Gen r nor Neg(v Gen r) belongs to Flg(κ)

Ontem estive às voltas com problema da alma. Quando se fala em alma, logo alguém se levanta e diz: “mas então como provar que tudo não procede de impulsos elétricos do cérebro?”, como se os impulsos elétricos que observamos num processador INTEL explicassem de onde vêm o software, o processamento dos comandos, etc.

Esse tipo de objeção, muito comum atualmente entre os menos dotados, mas já presente (quase sempre como argumento falacioso) entre os pré-socráticos, se resume a uma forma de reducionismo. Cada escola se concentra em um fenômeno particular, numa perspectiva inferível por descrições, mas nunca logram chegar a alguma causa primária. Os impulsos elétricos, as reações químicas, o movimento dos músculos, a alimentação do córtex, o processamento mesmo cerebral são o como, mas não o quê ou o porquê. Assim como não observamos na natureza a auto-geração ou o auto-impulso, não observamos a reflexão de uma rede sobre si mesma (ver a citação de Kant abaixo). A rede existe – como observamos nas redes neurais simuladas – mas não consegue produzir um conhecimento de si mesma (assim como a consistência dos axiomas não podem ser provada dentro do sistema, como provou Gödel).

Quando alguém responde convincentemente à objeção dos impulsos elétricos, logo aparece outra, desta vez enfocando outro aspecto. Mas nunca se explica a causa. Por quê estou aqui e não ali? Por quê posso escolher, enquanto é impossível projetar um software que efetue uma escolha autenticamente aleatória (o que conhecemos por randômico é, na verdade, um truque nada aleatório)? Como posso raciocinar sobre o raciocínio? Como tenho consciência? E o que explica o fato de que eu, sendo inteligente, possa manter uma teoria sobre a impossibilidade da verdade ao mesmo tempo em que a mantenho como uma teoria verdadeira? Ou que eu possa ao mesmo tempo defender que o homem não tem alma e ao mesmo tempo me julgue autorizado a me opor aos experimentos médicos dos nazistas? Que eu possa dizer que todos os meus impulsos se reduzem à libido e mesmo assim sustentar que essa teoria da libido, e apenas ela, não é um produto espúrio da libido, mas uma teoria verdadeira, que descreve a realidade? A causa de tudo isso permanece um mistério, e mesmo os neurologistas mais espertinhos silenciam sobre ela.

Existe um tipo de dúvida bastante preguiçosa que se apresenta da seguinte forma: “okeydokey: a Ciência ainda não conseguiu nem começar a intuir qual é essa causa; mas esperamos que, com o tempo, poderemos enxergar essa causa com um microscópio ou com uma fórmula matemática”. O problema é que a alma é um problema filosófico. A ciência faz cálculos, mede, observa e quantifica. Ela não lida com o que, por definição, escapa ao seu método. Um pouco de realismo não faz mal a ninguém.

Essas objeções recaem sempre na conhecida analogia com o jogo de xadrez, que denuncia logicamente essa falácia: quem joga o xadrez são os jogadores – fazendo uso das regras – e não as próprias regras. Mas veja bem: quem usa as regras imanentes à nossa rede neural? Se dissemos que é um homenzinho que temos no cérebro que, seguindo essas regras, controla o corpo, temos ainda de explicar como o homenzinho usa essas regras (dizendo por exemplo que esse homenzinho tem um homenzinho no cérebro que o controla, fazendo uso de meta-regras) e assim ad infinitum. Quem decide apertar o enter e rodar o programa, e com base em que motivo?

Kant escreveu algo interessante na Crítica da razão pura:

But of reason one cannot say that before the state in which it determines the power of choice, another state precedes in which this state itself is determined. For since reason itself is not an appearance and is not subject at all to any conditions of sensibility, no temporal sequence takes place in it even as to its causality, and thus the dynamical law of nature, which determines the temporal sequence according to rules, cannot be applied to it.

Por quê a inteligência é inteligível?

Domingo, Setembro 20, 2009

I was just trying to get that babbling gook off my lawn

Aceito o argumento de que a expressão "senso comum" pode ser mal empregada. Mas não se pode jogar fora a água da banheira com o bebê junto.

Essa atitude, na melhor das hipóteses, torna a conversa inútil. Quem começa por rejeitar tudo o que pareça evidente, por princípio e definitivamente, acaba por cair numa posição insustentável e que tende a cortar todas as condições de possibilidade de diálogo. Isso vale inclusive para a física, por exemplo. O resultado de uma experiência repetida nos traz sempre uma evidência, algo que pode ser visto como real por si mesmo; rejeitá-la seria descartar desde já qualquer possibilidade de sucesso. No terreno das experiências do dia-a-dia, a evidência - que não se sujeita a nenhum método - é ainda mais necessária.

Defender o senso comum pode parecer coisa de quem não quer pensar. Isso é falso. Só é possível pensar com segurança a partir de dados arrancados delicadamente da experiência comum e tradicional; o senso que se extrai do comum é mais seguro do que o senso que se extrai de um insight individual e isolado. Isso bastaria para rejeitar, ou ao menos considerar-se criticamente, toda filosofia que pressupõe que um gênio, num determinado ponto da história, possa descobrir algo tão fundamental sobre a vida que seria necessário jogar fora tudo o que tinha sido pensado até então. Como imaginar que a condição para o agir retamente seja a existência de Kant.

O cogito de Descartes ajudou-nos a pensar com mais cuidado na teoria do conhecimento (o que se extrai de uma consideração crítica da sua filosofia - e que nos leva a valorizar o giro subjetivo); mas por outro lado nos faz pressupor erroneamente que a certeza da res cogitans, daquele que pensa, é superior à evidência de que as coisas exteriores estão lá e são reais por definição antes da existência do eu, e que sem elas não poderia haver pensamento (sum, ergo cogitare possum).

Em filosofia, a genialidade incide sobre coisas acidentais: o modo de considerar, a perspectiva, a profundidade, as novas relações realizadas e paradigmas quebrados, a terminologia, a elegância. Essas coisas acidentais acabam por ser importantíssimas. Aristóteles inventou, por assim dizer, a lógica; mas não criou a lógica. Sem Aristóteles, o ser continua sendo o ser, e nosso sistema operacional não mudou uma vírgula. Sem o Aquinate, as noções de ato e potência permanecem, por mais que sem ele dificilmente se apresentariam aos nossos olhos de modo tão claro. Não é uma nova conexão do pensamento que mudará a realidade, transformando, como uma sentença pronunciada por um juiz medieval, o branco no preto, ex albo nigrum. Por mais que bufemos e gritemos e excomunguemos a mãe do taxista.

A revolta contra a realidade como ela é, por mais simpática que seja - como a preguicinha do brasileiro -, é coisa de retardado, mesmo que se trate de um retardado por um dia. Todos caímos nela vez ou outra; o Tomista Triunfante se revolta contra a realidade mais vezes do que seria capaz de admitir. Isso quando não transforma uma formulação da filosofia clássica num dogma arcaizante, algo tão perigoso quanto um exército de hegelianos de orelha peluda em ordem de batalha.

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Não há pureza. Só há luta. A verdade é relativa. Mas seja o que for, o "algo" que nos permite constatar essa relatividade da verdade tem um quê de imutável e eterno.

Cala-te e vai dormir.

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Bom dia e boa noite. Por favor, pronunciem kyri-e eleison, e não kyri eleison.

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Eu gostaria de carregar a minha irmã alta e esguia e cabelo indie para todo lado, como Orfeu e Eurídice, apontando as coisas e fazendo comentários, recitando poemas do Auden e escutando o que ela tem a dizer sobre o gato malhado e a Praça das Araras.

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Há poucas coisas mais legais em Gran Torino do que a idéia de que o "cara malvado", quando começa a acordar, pode dar um "cara bom" muito mais interessante do que os caras bonzinhos.

O testamento dele eu memorizei. É o melhor documento jurídico de doação mortis causa com encargo que eu já vi em toda a minha vida:

And I'd like to leave my 1972 Gran Torino to my friend Thao Vang Lor. On the condition that you don't chop-top the roof like one of those beaners, don't paint any idiotic flames on it like some white trash hillbilly, and don't put a big, gay spoiler on the rear end like you see on all the other zipperheads' cars. It just looks like hell. If you can refrain from doing any of that, it's yours.

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Chesterton: "White is a color; it is not the absence of color. Virtue is not merely the absence of vice; it is something pure and positive. Chastity is not merely abstention from sexual wrong, it means something flaming, like Joan of Arc." (O branco é uma cor; não é a ausência de cor. A virtude não é meramente a ausência de um vício; ela é algo puro e positivo. A castidade não é meramente a abstenção de um desvio de conduta sexual; ela significa algo flamejante, como Joana D'Arc).

O cara que lê uma frase dessas e não acaba dizendo internamente "holy shit, esse cara está malditamente certo" - com medo de que seus amigos posers possam ler o seu pensamento -, esse cara não é humano.

Terça-feira, Setembro 15, 2009

New Atheism

Upa-lelê. Coloquei um novo link para os podcasts/vídeos do John Lennox, um professor de matemática em Oxford que tem dado trabalho aos novos ateus. Belo sotaque irlandês, clareza e conteúdo.

Domingo, Setembro 13, 2009

INQB87R

Domingo bem aproveitado (até agora), encerrando com jazz escandinavo e dor de garganta (13/09).


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Mortos-vivos são patéticos.


Meus piores pesadelos são freqüentados por adolescentes pálidos que passam a madrugada lendo textos sobre a "missa tradicional", Lefèbvre e o Código de Direito Canônico revogado.


Estou para fazer uma refilmagem de "Thriller" substituindo os zumbis por sedevacantistas.


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Não deixem de conferir periodicamente as atualizações do blog do Érico Nogueira. A qualidade está para além dos blogs.

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Estou especialmente chocado com os juristas brasileiros. Além de terem desaprendido a escrever - se é que algum dia souberam mais do que fazê-lo conforme a gramática e os moldes barrocos -, agora inventaram de dispensar a pesquisa. Se quer saber algo sobre algum assunto, você terá praticamente de pesquisar por conta própria, interpretar, perder muito tempo, porque não encontrará nos livros mais do que já está no Código, nos livros anteriores (não nos clássicos, que deixaram de ser citados) e na auto-referente jurisprudência. E o pior: de maneira confusa.

Tenho essa experiência no momento: escrevendo um artigo sobre direito de superfície, descobri que a breve literatura sobre o tema escrita em português do Brasil não me diz quase nada além do que eu mesmo, sem eles, já sabia só de "orelhada", como diz alguém.

Às vezes me lembro de que tivemos Pontes de Miranda e Teixeira de Freitas. Mas só com esses dois não dá pra viver. Ou apostamos numa nova geração que seja pelo menos medíocre, ou seremos obrigados a nos acostumar com o copy-and-paste.

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my nose plays free jazz. end of it. hey chambers.
thas thee end of it.

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Compaixão com os interesses que cresceram nos anos 80: computadores ultrapassados, globos de luz, lugares que vimos em sonhos, milhafres, a festa distante que você ouviu de noite e ela não existia.

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Em prol da incomunicabilidade, salvaguardados a analogia e os bons costumes.

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O primeiro livro que você leu já foi reler.

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Caro Apolo,

Você pensar que eu e ela formávamos um casal comum pune-se com pena de morte.

Att.,
O autor

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Poetas que não escrevem, biografias, lendas-que-não-chegaram-a-ser.

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Septemberabend; traurig tönen die dunklen Rufe der Hirten
Durch das dämmernde Dorf; Feuer sprüht in der Schmiede

Noite de setembro; os escuros chamados dos pastores ecoam tristemente
Pela aldeia crepuscular; fogo crepita na forja.
(Landschaft, Georg Trackl, trad. ad hoc)

Domingo, Setembro 06, 2009

Ein rätselhafter Schimmer, ein "je ne sais-pas-quoi"

Tempos atrás o pessoal cantava nos pubs de Cambridge:

Should old Aquinas be forgot, and never brought to Mind?
Should old Aquinas be forgot, in days of Wittgenstein?
Can quiddity and haecceity, analogies divine,
Resolve the paradoxes of Willard Van Orman Quine?

Should symbols bleak replace the speech we learned at Mother's knee?
Or should we now reverse ourselves, and write the backwards E?
Can form and matter be preserved, and analyticity,
If we but put particulars for variables free?

Now Henry Veatch and Peter Geach we really must berate:
The subject and the predicate they leave to copulate.
Intensions pure we can't secure with Frege, Russell, Boole,
By treating good old Barbara with a novel kind of tool.

And Hesperus and Vesperus are entities distinct--
Or should we say, not this, but that they're analytically linked?
Shall we aver they're one indeed, with Smullyan, Church and Fitch?
Or should we moan "Ah, Quine alone can tell us which is which"?

Elas expressam o entusiasmo e a perplexidade com a onda da filosofia analítica inglesa.

De qualquer modo, o que me interessa é que, apesar da extensa literatura a respeito, Wittgenstein, com o argumento de que uma linguagem estritamente privada - ou seja, criada por um sujeito isolado e inteligível apenas para ele - não seria nunca uma linguagem, sustentava que a existência real dos objetos da linguagem é uma condição para a existência da própria linguagem. E com isso ele se encontra amigavelmente com Aristóteles e Tomás de Aquino naquilo que há de mais radical e importante nessa filosofia (no que diz respeito à teoria do conhecimento). É o que mostra, com abundância de argumentos, J. C. Calahan em Wittgenstein as a Gateway to Analytical Thomism.

Vejo a história da filosofia moderna como uma tentativa de se fugir, a todo custo, da constatação da existência do ser independentemente do que possamos dizer caluniosamente sobre ele, e da conclusão paralela de que os objetos da linguagem (convencional, sujeita a contextos e imperfeita) possuem existência real - i. e., de que o conhecimento humano e sua expressão discursiva é analógico, ou seja, tem uma forte correlação com a realidade exterior, com a coisa an sich.

Há essa idéia furada de um mundo regido por um demônio - um demônio que nos teria enganado a respeito do conhecimento até que pudéssemos, no séc. XVIII, receber a visita do Anjo de Königsberg (Kant), que nos revelaria a verdade de que a coisa em si é inacessível.

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Olha o que disse o Nietzsche real das cartas pessoais em Briefe 3/1169:

Was das Christentum betrifft, so wirst Du mir wohl das eine glauben: ich bin in meinem Herzen nie gegen dasselbe gemein gewesen und habe mir von Kindesbeinen an manche innerliche Mühe um seine Ideale gegeben, zuletzt freilich immer mit dem Ergebnis der puren Unmöglichkeit (Trad. minha: "No que diz respeito ao Cristianismo, espero que acredite no seguinte: que, no meu coração, nunca nutri por ele qualquer espécie de desprezo, desde a minha infância, e que muitas vezes lutei comigo mesmo tendo em vista os seus ideais; e que, ao fim, com certeza, essa luta sempre se chocou com a pura impossibilidade").

Que singelo. Viva o amorrr.

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Seria muito melhor que as pessoas admitissem a sua mediocridade, sem mais, ao invés de gastar a vida tentando convencer o resto das pessoas de que não há excelência (pensando nisso, numa resposta involuntária à carta de Nietzsche, Chesterton escreveu: The Christian ideal has not been tried and found wanting; it has been found difficult and left untried).

Não é porque eu não consigo andar de skate como Rodney Mullen - o cara que inventou o ollie e o kickflip, o deus do street que ganhou 34 de 35 campeonatos de que participou e foi excluído de outros mais para dar chance aos demais skatistas - que vou começar a jogar merda no ventilador dizendo que andar bem de skate é algo relativo.

É lógico que, no terreno existencial, no falhar ou não falhar na vida, as coisas são mais sutis. Isso é evidente. Basta comparar a dificuldade que temos para julgar sobre a honestidade de alguém com a facilidade que temos para dizer se nego toca bem um piano ou se é um picareta. Mas essa maior sutileza não nos exime do dever de investigar.

O problema com essas investigações morais - realizar-se ou não e como, ser um canalha ou um cara dos bons - é que há séculos temos ouvido fofocas de comadre a respeito da virtude. Dependendo do contexto da conversa, sempre soa mal dizer que fulano é bom, no sentido radical da palavra; esse fulano logo será objeto de inveja ou, pelo menos, de desconfiança. Ou melhor: o critério de bondade ou maldade será objeto de desconfiança - e eis o contexto que mataria a discussão.

Toda virtude real se esconde por baixo das imagens que temos delas. Ela está totalmente por baixo, quase secreta, com medo de ser descoberta. E com isso se forjou uma ética das justificativas - é que isso é relativo, é que isso eu ainda não pensei, é que, é que, é que. Logo são invocados exemplos práticos de gente que parecia ser boa e foi pega fazendo merda.

Outro exemplo são as religiões, e especialmente o cristianismo. Dá medo ser cristão porque só a palavra "cristão" evoca tudo, menos o cristianismo real: ela evoca um covarde, um cara que mija água benta, um cara sem formação ou que não sabe trabalhar ("ele trabalha na paróquia", o que significa que ele trabalha com papel crepom; pelo menos essa é a idéia que eu tenho). O assumir uma qualificação - embora a "qualificação", o rótulo, seja exatamente o ponto de distorção - é já, mesmo involuntariamente, assumir todos os estereótipos associados a ela. As pessoas têm medo de que os outros pensem que. Esse é o problema - para não falar no problema maior de quem assume um título sem viver do seu conteúdo e sai por aí dizendo que é retrógrado mesmo, carola mesmo, retardado mesmo ou o que for.

Os exemplos se multiplicam. Quem apenas deixa subentendida a idéia de que o casamento gay é uma contradição, e portanto questionável, ou que os objetos da linguagem possuem existência fora da referência, perdeu sua reputação (tchau, reputação, nos vemos no Rotary). Para quem, mesmo sem querer, foi enquadrado, nada importam os argumentos. O brasileiro é especialmente sentimental; a razão quase nunca entra em cena.

E assim sempre se foge do assunto: a vida útil do aparelho 'homem' entra no modo vida inútil porque ele está velho e cansado de tanto fugir.

Afinal, por Zeus, grande parte da civilização não foi mesmo montada para deixarmos de lado a coisa e vivermos de justificativas furadas?

E let us go then, you and I, montar blogs para justificar que, se somos medíocres, é porque essa é a única regra que não admite exceções.

Quarta-feira, Agosto 26, 2009

Castela faz os homens e os gasta

Você deveria estar a fim de gastar-se. Poupar-se é o que recomenda a propaganda do Bamerindus em 1986.

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Ser inclassificável é o resultado de se dar um passo à frente toda vez que alguma coisa diz que é absolutamente vital dar um passo à frente.

Não conheço nenhum filho da mãe que tenha se arrependido.

Morrer metaforicamente, mas for real, é adiantar-se.

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O Bruno Piazza recomendou essa letra de música e eu adquiri imediatamente uma nova cantora pop metafísica.

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Ser você mesmo é uma bobagem. Encarne o seu nome.

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Mais um pouco de gnosticismo e você cometerá apocalipse pessoal e ninguém vai notar. É um traço intangível dos gnósticos o serem progressivamente invisíveis, suscitando a mais violenta falta de compaixão.