As conexões que a ciência nos obriga a fazer torna a "interdisciplinaridade" algo inescapável. Acabei por comprová-lo na minha própria pesquisa sobre um antigo instituto de direito romano. Fui obrigado a emprestar dados de muitas disciplinas: história, geografia, epigrafia, papirologia, filologia, linguística, arqueologia, agricultura, agrimensura, fotografia aérea, e vai saber o que mais. Antes, eu achava que interdisciplinaridade fosse conversa fiada, e nunca imaginaria que teria de usar o Google Earth numa pesquisa sobre a propriedade privada em Roma. Sem que eu pudesse perceber, as coisas aconteceram.
Isso me fez pensar na autonomia da realidade, que destrói preconceitos e noções ideológicas (e dizê-lo não faz de mim um professor da USP). A ciência é uma excelente oportunidade para o exercício do "curvar-se aos objetos" que estão lá fora, ou seja, cuja existência não depende de mim.
In this study, the potential and feasibility of the use of panchromatic and multispectral QuickBird data for the identification and spatial characterization of archaeological sites was evaluated. The analysis focused on an assessment of the capability of QuickBird images to detect surface anomalies expected in the presence of archaeological buried remains. The investigations were performed for a test case in the south of Italy, where human activity has been logged from the Palaeolithic to the Middle Ages. The results show that the QuickBird panchromatic and data fusion products can be a flexible data source for archaeological prospection, and can be useful for extracting features of archaeological sites prior to any excavation work and for increasing the cultural value of historical sites.
* * *
Que diabos é anti-folk?
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Noel Gallager recentemente afirmou, entre outras coisas, que não suportava isso de shows com mensagem política, discursos carregados de mea culpa, etc, a exemplo dos do Coldplay e do U2. Apesar de ele falar merda grande parte do tempo, sou forçado a concordar. E o "seu ponto" é que as pessoas vão aos shows para ouvir música, to have a good time. "Não vou a um show para me sentir culpado", disse ele.
Curiosamente, essa é uma característica marcante desde os anos 90 (ou 60?). Deve haver um espaço público em que os artistas são gente engajada, o público se sente culpado e todos dão as mãos. Mas gente, eu quero ouvir música. Eu não sou um cara legal. Talvez eu me preocupe mais com o que acontece na minha casa do que com a África (o que não significa que a África não seja digna de atenção, ou o Brasil ou a Inglaterra). Talvez eu queira ouvir alguém que saiba tocar bem o piano, ou o que?
O problema é que as pessoas se preocupam demais com algo que não podem mudar e ignoram aquilo que podem fazer. Deixar de tentar ser um cara tão bacana e engajado seria um bom passo. Isso você pode mudar. Deixar a angústia social de lado e arranjar um emprego que se possa desempenhar com arte: é o modo normal de agir bem e dar a sua contribuição à "sociedade" (eu digo real people), mesmo que ela seja totalmente imperceptível (exemplo: analisar fotografias aéreas e fumar no intervalo).
Ontem estive numa pequena festa. Um sujeito que conheci, com o mesmo nome que eu, dizia que aprendera há pouco algo interessante: não é porque eu sou bonzinho que coisas boas acontecem. Shit happens to good people. Eu acrescentaria que, se ele reparasse bem, descobriria que ele não é tão bom assim e que, mesmo que o fosse, a merda aconteceria. Simples, não? Mas como custa reconhecer. Não se trata de uma constatação depressiva. Não somos soviéticos. Mesmo descobrindo que não somos tão legais, há vida no depois. E acrescento, vida melhor. Mas eu não disse nada. Eu e ele aprenderemos sozinhos. Papai não precisa ensinar, nicht wahr?
Isso diz muito sobre a literatura, como o MVC muito bem disse, carregando no sombrio: ela lida com o fracasso, e sabe resolvê-lo de modo esteticamente aprazível. A vida é muitas vezes literária, como diz o cliché. Converter a vida em literatura, a literatura em vida (corta essa, Leonard Cohen, de novo, que maldito cliché). Mas ok, é por aí.
A providência atua nos bares, nos cafés: o palco muitas vezes é montado para que não sejamos mais outros, não mais anônimos, não mais tão vagamente preocupados com a realidade. E lá estamos mudando o mundo. Não como os estudantes de 68, mas como as donas de casa, conversando com os chatos e servindo o cafezinho morno.
Domingo, Julho 05, 2009
Domingo, Junho 21, 2009
Dois
Em 1994 surgia um dos melhores albuns do hardcore/indie da década passada: Hand Me Down, do Falling Forward. Sei que só dois leitores - e isso não acidentalmente, pois a conhecemos juntos - conhecem a banda, mas mesmo assim, ok, voilá. Sou particularmente fã dessa descendente menor do Elliott por dois motivos: (i) lá está o frescor que já não têm mais as bandas alternativas de hoje, e (ii) os caras sabiam o que estavam cantando (reparem na letra de Character, que começa com um memorável "Ill rage a war against myself"). E não adianta ir atrás do CD: ele deixou de ser editado em 2000 e nunca mais, creio, o será. Mas todo o disco está disponível para download aqui. É para ficar na história das coisas menores.
* * *
Reconciliei-me com os últimos artistas contemporâneos ao visitar no domingo o Brandhorst Museum, o mais recente museu de Munique, um dos melhores (e menores!) que já visitei. A arquitetura é uma obra de arte que não fica a dever ao conteúdo exposto (é a construção perfeita para quem gosta de fotografia arquitetônica, a propósito). Você sabe onde está o tempo todo, o que não é comum - ainda mais para gente perdida como eu. Além de agradável, o edifício é bonito (!).
Lá estão muitos trabalhos de Warhol para agradar o público caça-celebridades. Mas o melhor é uma grande coleção de obras do carro-chefe Cy Twombly, que ocupa, como é de lei, enormes salas e passages. Quem sabe um dia ele não ilustra um número da Dicta? Além disso, Christopher Wool, Bruce Nauman, Sigmar Polke. E, de brinde, um trabalho daquele que é talvez o maior, e o mais caro, artista plástico vivo: Gerhard Richter (há muitas coisas dele aqui; hoje estou me sentido generoso). E um vídeo anticomunista armênio (?) cujo autor não consegui identificar.
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Reconciliei-me com os últimos artistas contemporâneos ao visitar no domingo o Brandhorst Museum, o mais recente museu de Munique, um dos melhores (e menores!) que já visitei. A arquitetura é uma obra de arte que não fica a dever ao conteúdo exposto (é a construção perfeita para quem gosta de fotografia arquitetônica, a propósito). Você sabe onde está o tempo todo, o que não é comum - ainda mais para gente perdida como eu. Além de agradável, o edifício é bonito (!).
Lá estão muitos trabalhos de Warhol para agradar o público caça-celebridades. Mas o melhor é uma grande coleção de obras do carro-chefe Cy Twombly, que ocupa, como é de lei, enormes salas e passages. Quem sabe um dia ele não ilustra um número da Dicta? Além disso, Christopher Wool, Bruce Nauman, Sigmar Polke. E, de brinde, um trabalho daquele que é talvez o maior, e o mais caro, artista plástico vivo: Gerhard Richter (há muitas coisas dele aqui; hoje estou me sentido generoso). E um vídeo anticomunista armênio (?) cujo autor não consegui identificar.
Segunda-feira, Junho 08, 2009
Costurando cadáveres de arminhos
Ter leitores sensatos é o sonho de qualquer escritor.
* * *
Os leitores definem, em última instância, o que será de uma obra. Se ninguém tivesse compreendido Machado de Assis ou (o que dá no mesmo) ele tivesse sido esquecido, a sua obra possuiria, sim, um valor intrínseco potencial - mas o que é a literatura desconhecida senão, na prática, um fenômeno socialmente nulo?
Não haveria Cícero se os anônimos eruditos medievais e os Humanistas fossem idiotas: eles teriam feito a alegria das traças com os manuscritos e boa parte da cultura latina teria virado, literalmente, merda Lepismae saccharinae (cocô de traça).
* * *
Muitas vezes se ouve dizer que alguém escreve para si. Isso está longe de ser um problema. Alguns deles farão parte dos "clássicos do futurível", seja por decisão pessoal, seja por acidente (Os Lusíadas quase se perderam, Kafka mandou expressamente queimar seus manuscritos mas foi felizmente desobedecido, etc.). (E eu diria que o espírito que move os que escrevem para si é muito mais nobre do que o dos que querem ser conhecidos a todo custo. Aliás, não seria essa despreocupação um atributo essencial do escritor?) Mas nós torcemos para que os bons autores sejam divulgados, trasformem e sejam transformados pelos seus leitores. Infelizmente, só vivemos em uma solitária dimensão do espaço-tempo.
E suspeito que ela não seja paralela a nenhuma outra.
* * *
Por um lado, acreditar que as infinitas bifurcações temporais gerem infinitos universos paralelos é substancializar ilicitamente a imaginação matemática.
Isso se assemelha ao furado argumento antológico de S. Anselmo: pensar que Deus existe porque é a coisa mais perfeita que se pode imaginar e que, se for mesmo perfeita, deve ter o atributo da existência (!), é o mesmo que pensar que a escolha entre duas (na prática, infinitas) alternativas para uma ação - e aqui nos atemos apenas à dimensão da escolha livre humana - não é definitiva, e que a alternativa não escolhida teria vida própria e portanto habitaria um universo paralelo.
Às vezes tenho a impressão de que muita gente acredita, inconscientemente, viver num universo paralelo, mesmo que nunca tenha formulado expressamente, de si para si, esse problema.
A vida real, entretanto, não admite esse raciocínio. Na prática, só nos preocupamos com os resultados das nossas escolhas para essa vida que se desenvolve diante dos nossos olhos. Os outros eus-paralelos ("o que seria de mim se...") são, ou deveriam ser, ignorados.
Por outro lado, a imaginação certamente ajuda quando, inspirando-se num eu-paralelo, encontra energia para forjar, à sua imagem, um novo Eu, não passado, mas a partir de agora. É quando o futurível deixa de ser futurível.
Enquanto é absurdo contemplar "o que eu teria sido se", é algo muito fértil contemplar "o que eu serei se", desde que eu esteja disposto a colocar os meios pertinentes. À força de imaginar, forjamos um futuro real: podemos vir a habitar um "universo-que-seria-paralelo" escolhendo livremente a existência - dentro das limitações de costume (basta ter em conta que não somos deuses) - que queremos.
A nossa história pessoal mostra - espero que os leitores encontrem exemplos - que coisas absurdas, que mal podíamos acreditar, aconteceram. Talvez não sejam muitos os nossos exemplos. Penso, aliás, que poderiam ser mais numerosos. O que distingue um medíocre de um excelente (pensem em algo interessante, e não no José Wilker) é essa capacidade de imaginar coisas absurdas e torná-las reais.
Definitivamente, a vida dos time travellers é mais interessante.
------
P. S. progaganda: A Dicta 3 já está em segundo lugar no ranking de vendas não-ficção na Cultura.
* * *
Os leitores definem, em última instância, o que será de uma obra. Se ninguém tivesse compreendido Machado de Assis ou (o que dá no mesmo) ele tivesse sido esquecido, a sua obra possuiria, sim, um valor intrínseco potencial - mas o que é a literatura desconhecida senão, na prática, um fenômeno socialmente nulo?
Não haveria Cícero se os anônimos eruditos medievais e os Humanistas fossem idiotas: eles teriam feito a alegria das traças com os manuscritos e boa parte da cultura latina teria virado, literalmente, merda Lepismae saccharinae (cocô de traça).
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Muitas vezes se ouve dizer que alguém escreve para si. Isso está longe de ser um problema. Alguns deles farão parte dos "clássicos do futurível", seja por decisão pessoal, seja por acidente (Os Lusíadas quase se perderam, Kafka mandou expressamente queimar seus manuscritos mas foi felizmente desobedecido, etc.). (E eu diria que o espírito que move os que escrevem para si é muito mais nobre do que o dos que querem ser conhecidos a todo custo. Aliás, não seria essa despreocupação um atributo essencial do escritor?) Mas nós torcemos para que os bons autores sejam divulgados, trasformem e sejam transformados pelos seus leitores. Infelizmente, só vivemos em uma solitária dimensão do espaço-tempo.
E suspeito que ela não seja paralela a nenhuma outra.
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Por um lado, acreditar que as infinitas bifurcações temporais gerem infinitos universos paralelos é substancializar ilicitamente a imaginação matemática.
Isso se assemelha ao furado argumento antológico de S. Anselmo: pensar que Deus existe porque é a coisa mais perfeita que se pode imaginar e que, se for mesmo perfeita, deve ter o atributo da existência (!), é o mesmo que pensar que a escolha entre duas (na prática, infinitas) alternativas para uma ação - e aqui nos atemos apenas à dimensão da escolha livre humana - não é definitiva, e que a alternativa não escolhida teria vida própria e portanto habitaria um universo paralelo.
Às vezes tenho a impressão de que muita gente acredita, inconscientemente, viver num universo paralelo, mesmo que nunca tenha formulado expressamente, de si para si, esse problema.
A vida real, entretanto, não admite esse raciocínio. Na prática, só nos preocupamos com os resultados das nossas escolhas para essa vida que se desenvolve diante dos nossos olhos. Os outros eus-paralelos ("o que seria de mim se...") são, ou deveriam ser, ignorados.
Por outro lado, a imaginação certamente ajuda quando, inspirando-se num eu-paralelo, encontra energia para forjar, à sua imagem, um novo Eu, não passado, mas a partir de agora. É quando o futurível deixa de ser futurível.
Enquanto é absurdo contemplar "o que eu teria sido se", é algo muito fértil contemplar "o que eu serei se", desde que eu esteja disposto a colocar os meios pertinentes. À força de imaginar, forjamos um futuro real: podemos vir a habitar um "universo-que-seria-paralelo" escolhendo livremente a existência - dentro das limitações de costume (basta ter em conta que não somos deuses) - que queremos.
A nossa história pessoal mostra - espero que os leitores encontrem exemplos - que coisas absurdas, que mal podíamos acreditar, aconteceram. Talvez não sejam muitos os nossos exemplos. Penso, aliás, que poderiam ser mais numerosos. O que distingue um medíocre de um excelente (pensem em algo interessante, e não no José Wilker) é essa capacidade de imaginar coisas absurdas e torná-las reais.
Definitivamente, a vida dos time travellers é mais interessante.
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P. S. progaganda: A Dicta 3 já está em segundo lugar no ranking de vendas não-ficção na Cultura.
Segunda-feira, Junho 01, 2009
Infinitary mathematics is a fantasy world in which we fantasize about the completions of processes which, realistically, we can only begin
Aquela expressão antiquada acender uma vela a São Miguel e outra ao diabo parece afirmar, não um dogma, mas uma máxima da experiência.
A opção por manter uma espécie de duplipensar moral, além do custo emocional, só pode ser sustentada por uma espécie de filosofia: o niilismo radical, que consegue aparentemente conciliar uma ausência total de fundamentos para o agir com as exigências da vida normal. Na prática, ninguém faria negócios com um niilista, ninguém gostaria de ser seu amigo, etc etc. O zeitgeist tornou-o, entretanto, alguém interessante. Na pior das hipóteses, o niilista nunca se assume como tal (estou falando de pessoas concretas, que existem e respiram, e não de categorias filosóficas).
Uma espécie de voluntarismo sustenta e conserva a opção niilista: apesar de todas as evidências em contrário extraídas da vida prática com pertubadora evidência, mantenho essa contradição e essa paradoxal tensão (the sort of tension that equals zero) simplesmente porque quero. Lembro-me de ter usado repetidas vezes esse argumento interior, porque fui eu mesmo um niilista radical com todas as letras. Experimenta-se então, sem dramas (como queira), o que nos papers sobre o tema costuma chamar-se "abismo ontológico", e é quase impossível sequer respirar intelectualmente. Pode-se empurrar com a barriga, mas a situação é tão absurda, que a atividade mais nobre e interessante passa a ser algo que defini como "contemplar paredes", algo que desemboca, se a pessoa tiver coragem o suficiente, numa estética do vazio. Essa situação foi suficientemente descrita na literatura contemporânea, com destaque para os romances de Don DeLillo.
Por uma espécie de instinto de sobrevivência, poucos têm coragem de levar o niilismo até as últimas consequências. Trata-se de uma incapacidade crônica de formular claramente a própria opção intelectual.
São muitos os obstáculos que se erguem diante de quem procura formular claramente a sua própria opção intelectual niilista. Um deles é o próprio espírito do tempo. O que era antes um passatempo exclusivo de pessoas inteligentes, teóricos da arte e filósofos tornou-se pelo menos desde os anos 80 uma alternativa para as massas. Não se exige do consumidor dotes intelectuais ou coragem. Basta assistir a um reality show ou a um comercial para se expor a doses cavalares de niilismo - como dizia há muito tempo Baudrillard, a publicidade veicula essa filosofia do nada através de imagens aprazíveis e aparentemente inofensivas, e praticamente não há como fugir dela.
Muitas vezes o simples ato de realizar essa formulação é a única saída para encontrar o sentido que falta. Lamento informar, para os que ainda não sacaram, que não basta recorrer a uma bibliografia anti-niilista, ou o que for. É preciso contato com pessoas que, de uma forma ou de outra, encontraram o caminho de volta - naturalmente não me refiro aos chatos "conversos" ou a proselitistas do otimismo - ou que nunca caíram nele.
Platão afirma em uma de suas cartas justamente isso: o que nos faz realmente cair do cavalo é o contato (aqui ele utiliza uma palavra grega intraduzível, algo que lembra vagamente "trato", "comércio" ou "intercâmbio") com pessoas interessantes, e não os livros. Eu diria que é a amizade; e se você não está pronto para acrescentar ao termo amizade conotações meramente sentimentais ou francamente equivocadas, poderá ter uma idéia do que quero dizer.
A imunidade à poluição semântica, assim como o gosto pela alimentação normal (v. g., carne, massas, queijo; café, vinho, cerveja), é nada mais do que sinal de saúde.
A opção por manter uma espécie de duplipensar moral, além do custo emocional, só pode ser sustentada por uma espécie de filosofia: o niilismo radical, que consegue aparentemente conciliar uma ausência total de fundamentos para o agir com as exigências da vida normal. Na prática, ninguém faria negócios com um niilista, ninguém gostaria de ser seu amigo, etc etc. O zeitgeist tornou-o, entretanto, alguém interessante. Na pior das hipóteses, o niilista nunca se assume como tal (estou falando de pessoas concretas, que existem e respiram, e não de categorias filosóficas).
Uma espécie de voluntarismo sustenta e conserva a opção niilista: apesar de todas as evidências em contrário extraídas da vida prática com pertubadora evidência, mantenho essa contradição e essa paradoxal tensão (the sort of tension that equals zero) simplesmente porque quero. Lembro-me de ter usado repetidas vezes esse argumento interior, porque fui eu mesmo um niilista radical com todas as letras. Experimenta-se então, sem dramas (como queira), o que nos papers sobre o tema costuma chamar-se "abismo ontológico", e é quase impossível sequer respirar intelectualmente. Pode-se empurrar com a barriga, mas a situação é tão absurda, que a atividade mais nobre e interessante passa a ser algo que defini como "contemplar paredes", algo que desemboca, se a pessoa tiver coragem o suficiente, numa estética do vazio. Essa situação foi suficientemente descrita na literatura contemporânea, com destaque para os romances de Don DeLillo.
Por uma espécie de instinto de sobrevivência, poucos têm coragem de levar o niilismo até as últimas consequências. Trata-se de uma incapacidade crônica de formular claramente a própria opção intelectual.
São muitos os obstáculos que se erguem diante de quem procura formular claramente a sua própria opção intelectual niilista. Um deles é o próprio espírito do tempo. O que era antes um passatempo exclusivo de pessoas inteligentes, teóricos da arte e filósofos tornou-se pelo menos desde os anos 80 uma alternativa para as massas. Não se exige do consumidor dotes intelectuais ou coragem. Basta assistir a um reality show ou a um comercial para se expor a doses cavalares de niilismo - como dizia há muito tempo Baudrillard, a publicidade veicula essa filosofia do nada através de imagens aprazíveis e aparentemente inofensivas, e praticamente não há como fugir dela.
Muitas vezes o simples ato de realizar essa formulação é a única saída para encontrar o sentido que falta. Lamento informar, para os que ainda não sacaram, que não basta recorrer a uma bibliografia anti-niilista, ou o que for. É preciso contato com pessoas que, de uma forma ou de outra, encontraram o caminho de volta - naturalmente não me refiro aos chatos "conversos" ou a proselitistas do otimismo - ou que nunca caíram nele.
Platão afirma em uma de suas cartas justamente isso: o que nos faz realmente cair do cavalo é o contato (aqui ele utiliza uma palavra grega intraduzível, algo que lembra vagamente "trato", "comércio" ou "intercâmbio") com pessoas interessantes, e não os livros. Eu diria que é a amizade; e se você não está pronto para acrescentar ao termo amizade conotações meramente sentimentais ou francamente equivocadas, poderá ter uma idéia do que quero dizer.
A imunidade à poluição semântica, assim como o gosto pela alimentação normal (v. g., carne, massas, queijo; café, vinho, cerveja), é nada mais do que sinal de saúde.
Domingo, Maio 31, 2009
Belong
Olhando para trás, acho que o jazz sempre foi o meu âmbito musical favorito. Mas para ouvir jazz, que é uma coisa profissional, é preciso tempo, discernimento e paciência. Atualmente estou em falta no que diz respeito aos três requisitos, de modo que, quando surge a necessidade, ao invés de expandir o meu círculo, permaneço nos clássicos John Coltrane, Charlie Parker, Ornette Coleman, Miles Davis e Chet Baker (do qual aprendi a gostar com o memorável Fernando A B); mas vez ou outra sucumbo aos anos 70 escandinavos - especialmente Jan Garbarek, com o tema de jazz mais belo já realizado (My Song, com o fantástico Keith Jarrett) -, ao baterista mágico Jack DeJohnette, à guitarra de Pat Metheny.
E aos que não gostam de jazz: nunca é tarde. Mesmo aos sem-paciência, não custa tentar.
* * *
A música tem mesmo algo de mágico. Mas ela só é efetivamente mágica quando não se põe nela todas as nossas esperanças.
A arte não vai te salvar. Essa é uma dura verdade, que passou a se esconder depois que criaram o mito do gênio no séc. XIX.
E aos que não gostam de jazz: nunca é tarde. Mesmo aos sem-paciência, não custa tentar.
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A música tem mesmo algo de mágico. Mas ela só é efetivamente mágica quando não se põe nela todas as nossas esperanças.
A arte não vai te salvar. Essa é uma dura verdade, que passou a se esconder depois que criaram o mito do gênio no séc. XIX.
Quinta-feira, Maio 28, 2009
Terça-feira, Maio 26, 2009
Voll krass, Alder!

Para quem ainda não sabe, o número 3 da Dicta será lançado nos próximos dias. Eis a capa.
Foi uma surpresa, até para mim, como as coisas se passaram. A entrevista com o ex-presidente FHC é tudo menos uma entrevista comum. Cremos ter feito - os créditos vão para o entrevistador e para o time da Dicta, que formulou as perguntas com um grande cuidado - um bom trabalho de jornalismo (cabe todavia ao leitor julgar), que implica deixar o sensacionalismo de lado e ir às coisas importantes, sem tirar nada do contexto.
Fiquei muito contente também com o artigo do Olavo, que ainda não tive oportunidade de ler. Os livros do Mario Ferreira dos Santos foram meu primeiro guia quando comecei a estudar metafísica há mais ou menos 7 anos atrás. E por aí vai.
Teremos surpresas também por ocasião do lançamento, que será muito diferente do "habitual".
* * *
Peço desculpas, se é que alguém percebeu, pelo longo tempo sem postar. Eu costumo me desconectar fisicamente da Internet - meu notebook está voluntariamente sem acesso - para poder trabalhar em paz. E eis que -
* * *
Acabo de ler Das Gefängnis der Freiheit de Michael Ende (1992), excelente livro de contos quase que expressamente dedicado a Jorge Luis Borges. Não tenho notícias da sua tradução para o português - o que é uma pena -, mas é possível conferir a tradução espanhola, La prisión de la libertad.
Não é difícil perceber que todos os contos estão relacionados entre si, como era de se esperar. Todos são bons e a melhor coisa é lê-los na sequencia disposta no livro, começando pela história de Cyril, filho fleumático de um rico diplomata que procura, sem querer, algum sentido para a sua vida, e indo até a de Wegweiser (o "Homem Placa", entre muitas outras identidades), um homem legendário cujo nascimento e morte estão ligados por um raio. É praticamente impossível voltar ileso para o mundo real, mas a leitura é mesmo assim fortemente recomendada.
Em certo sentido, Ende entende melhor das coisas do que Borges, embora seja talvez inferior do ponto de vista literário. Os gnósticos escrevem melhor, malgrado a sua confusão. Borges brinca, apesar de parecer um homem sisudo (ele dizia que, se pudesse reencarnar, reincidiria com gosto nos mesmos erros). Michael Ende é uma criança que leva a vida realmente a sério.
Tanto que já comecei a ler Momo (1973) e não consigo mais parar.
Descobri há pouco tempo que Michael Ende morreu em 1995. Tinham me dito que ele estava vivo, eu queria continuar nessa ilusão, mas o Google o matou de câncer de estômago.
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